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O meu pensamento

O meu pensamento

Poema do Silêncio

Agosto 17, 2018

Isis Erzsébeth Báthory

Sim, foi por mim que gritei.

Declamei,

Atirei frases em volta.

Cego de angústia e de revolta.

 

Foi em meu nome que fiz,

A carvão, a sangue, a giz,

Sátiras e epigramas nas paredes

Que não vi serem necessárias e vós vedes.

 

Foi quando compreendi

Que nada me dariam do infinito que pedi,

- Que ergui mais alto o meu grito

E pedi mais infinito!

 

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,

Eis a razão das épi trági-cómicas empresas

Que, sem rumo,

Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

 

O que buscava

Era, como qualquer, ter o que desejava.

Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,

Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

 

Que só por me ser vedado

Sair deste meu ser formal e condenado,

Erigi contra os céus o meu imenso Engano

De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

 

Senhor meu Deus em que não creio!

Nu a teus pés, abro o meu seio

Procurei fugir de mim,

Mas sei que sou meu exclusivo fim.

 

Sofro, assim, pelo que sou,

Sofro por este chão que aos pés se me pegou,

Sofro por não poder fugir.

Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

 

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!

(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)

Senhor dá-me o poder de estar calado,

Quieto, maniatado, iluminado.

 

Se os gestos e as palavras que sonhei,

Nunca os usei nem usarei,

Se nada do que levo a efeito vale,

Que eu me não mova! que eu não fale!

 

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,

Era por um de nós. E assim,

Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,

Lutava um homem pela humanidade.

 

Mas o meu sonho megalómano é maior

Do que a própria imensa dor

De compreender como é egoísta

A minha máxima conquista...

 

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros

Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,

E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,

E sobre mim de novo descerá...

 

Sim, descerá da tua mão compadecida,

Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.

E uma terra sem flor e uma pedra sem nome

Saciarão a minha fome.

 

 

José Régio

 

D. SEBASTIÃO, Rei de Portugal...

Julho 28, 2018

Isis Erzsébeth Báthory

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

 

Fernando Pessoa

Mudam-se os tempos

Julho 27, 2018

Isis Erzsébeth Báthory

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, 
muda-se o ser, muda-se a confiança; 
todo o mundo é composto de mudança, 
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades, 
diferentes em tudo da esperança; 
do mal ficam as mágoas na lembrança, 
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto, 
que já coberto foi de neve fria, 
e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia, 
outra mudança faz de mor espanto, 
que não se muda já como soía.  

 

Luís Vaz de Camões

Cântico Negro

Maio 25, 2018

Isis Erzsébeth Báthory

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...

 

A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe

 

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...

 

Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?

 

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...

 

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

 

Como, pois sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

 

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

 

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

- Sei que não vou por aí!

 

José Régio

The Sleeper

Abril 29, 2018

Isis Erzsébeth Báthory

At midnight, in the month of June,

I stand beneath the mystic moon.

An opiate vapor, dewy, dim,

Exhales from out her golden rim,

And, softly dripping, drop by drop,

Upon the quiet mountain top,

Steals drowsily and musically

Into the universal valley.

The rosemary nods upon the grave;

The lily lolls upon the wave;

Wrapping the fog about its breast,

The ruin molders into rest;

Looking like Lethe, see! the lake

A conscious slumber seems to take,

And would not, for the world, awake.

All Beauty sleeps!- and lo! where lies

Irene, with her Destinies!

 

O, lady bright! can it be right-

This window open to the night?

The wanton airs, from the tree-top,

Laughingly through the lattice drop-

The bodiless airs, a wizard rout,

Flit through thy chamber in and out,

And wave the curtain canopy

So fitfully- so fearfully-

Above the closed and fringed lid

'Neath which thy slumb'ring soul lies hid,

That, o'er the floor and down the wall,

Like ghosts the shadows rise and fall!

Oh, lady dear, hast thou no fear?

Why and what art thou dreaming here?

Sure thou art come O'er far-off seas,

A wonder to these garden trees!

Strange is thy pallor! strange thy dress,

Strange, above all, thy length of tress,

And this all solemn silentness!

 

The lady sleeps! Oh, may her sleep,

Which is enduring, so be deep!

Heaven have her in its sacred keep!

This chamber changed for one more holy,

This bed for one more melancholy,

I pray to God that she may lie

For ever with unopened eye,

While the pale sheeted ghosts go by!

 

My love, she sleeps! Oh, may her sleep

As it is lasting, so be deep!

Soft may the worms about her creep!

Far in the forest, dim and old,

For her may some tall vault unfold-

Some vault that oft has flung its black

And winged panels fluttering back,

Triumphant, o'er the crested palls,

Of her grand family funerals-

Some sepulchre, remote, alone,

Against whose portal she hath thrown,

In childhood, many an idle stone-

Some tomb from out whose sounding door

She ne'er shall force an echo more,

Thrilling to think, poor child of sin!

It was the dead who groaned within.

Edgar Allan Poe

The City in the Sea

Abril 12, 2018

Isis Erzsébeth Báthory

Lo! Death has reared himself a throne

In a strange city lying alone

Far down within the dim West,

Where the good and the bad and the worst and the best

Have gone to their eternal rest.

There shrines and palaces and towers

(Time-eaten towers that tremble not!)

Resemble nothing that is ours.

Around, by lifting winds forgot,

Resignedly beneath the sky

The melancholy waters lie.

No rays from the holy heaven come down

On the long night-time of that town;

But light from out the lurid sea

Streams up the turrets silently-

Gleams up the pinnacles far and free-

Up domes- up spires- up kingly halls-

Up fanes- up Babylon-like walls-

Up shadowy long-forgotten bowers

Of sculptured ivy and stone flowers-

Up many and many a marvellous shrine

Whose wreathed friezes intertwine

The viol, the violet, and the vine.

Resignedly beneath the sky

The melancholy waters lie.

So blend the turrets and shadows there

That all seem pendulous in air,

While from a proud tower in the town

Death looks gigantically down.

 

There open fanes and gaping graves

Yawn level with the luminous waves;

But not the riches there that lie

In each idol's diamond eye-

Not the gaily-jewelled dead

Tempt the waters from their bed;

For no ripples curl, alas!

Along that wilderness of glass-

No swellings tell that winds may be

Upon some far-off happier sea-

No heavings hint that winds have been

On seas less hideously serene.

 

But lo, a stir is in the air!

The wave- there is a movement there!

As if the towers had thrust aside,

In slightly sinking, the dull tide-

As if their tops had feebly given

A void within the filmy Heaven.

The waves have now a redder glow-

The hours are breathing faint and low-

And when, amid no earthly moans,

Down, down that town shall settle hence,

Hell, rising from a thousand thrones,

Shall do it reverence.

 

Edgar Allan Poe

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